Da tradição à cultura pop: Londres abre Olimpíadas com sons e cores
Não foi uma cerimônia tão empolgante quanto a de Pequim 2008, mas deixou marcas. A coordenação do evento foi de Danny Boyle, cineasta responsável por filmes como "Trainspotting" e "Quem quer ser um milionário?". Ele privilegiou a música britânica, aproveitando uma frase tirada de Shakespeare, sobre a "ilha de sons" que receberá as Olimpíadas. A festa teve de tudo: da Rainha Elizabeth II a Harry Potter; de James Bond aos maiores grupos de rock da história.
E, acima de tudo, teve Paul McCartney. Ele fechou a festa. Emocionou com duas músicas: "Hey Jude" e "The End". A segunda deixa uma mensagem de paz ao dizer que, no final das contas, o amor que você recebe é o mesmo que você cativa.
De Shakespeare a Mr. Bean
Foi uma mistura. De certa forma, William Shakespeare dividiu palco com Mr. Bean. J.K. Rowling, a escritora de Harry Potter, esteve acompanhada por Bond, James Bond. Beatles, Stones, Queen, The Who, Eric Clapton, Amy Winehouse: chegou a ser sacanagem... Londres fez questão de lembrar ao mundo, e talvez a si própria, o quão gigantesco é seu rastro cultural, quanta história ela tem para contar - e quanta história já contou. Boa parte da cerimônia de abertura foi mais musical, literária e política do que esportiva, como que a sublinhar que as Olimpíadas vão muito além do esporte.
Houve momentos de risos e momentos de emoção. Antes mesmo das 17h, atores já interagiam com animais no palco, diante da representação de uma Inglaterra campestre, bucólica. Mas os tempos mudaram, e o centro do Estádio Olímpico também. Conforme o cenário se modificava radicalmente, trocando o verde pelo cinza, as personagens migravam do campo para a cidade. Era a Revolução Industrial, uma marca da Inglaterra. Chaminés surgiram no meio do palco. Tudo virou uma enorme fábrica.
E uma fábrica que também cria aros. Aros olímpicos. A construção de um deles foi simulada ali mesmo, por operários, enquanto os outros desciam do céu, onde logo se encontrariam para formar o símbolo que dizia ao mundo: começaram as Olimpíadas.
Corais infantis homenagearam os países da Grã-Bretanha, cada qual em algum ponto de Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte. Foram lembrados esportes expressivos de cada uma das nações. Em seguida, o ator Kenneth Branagh foi a palco para representar Shakespeare. "Não tenham medo; é uma ilha cheia de sons", declamou ele, fazendo referência à obra "A Tempestade", tema da abertura.
Foi o início do desfile cultural dos londrinos. E das risadas, já que o humor britânico não falha. A literatura não ficou restrita a Shakespeare. Textos infantis célebres foram lembrados. Rowling declamou trechos de Peter Pan, enquanto crianças, no palco, fugiam de monstros. Daniel Craig reencarnou James Bond para, em um vídeo, buscar a Rainha Elizabeth II no Palácio de Buckingham. Foi simulada a ida deles de helicóptero até o estádio - e o melhor: um salto de paraquedas na direção da festa. Em seguida, a Rainha (a verdadeira, não a atriz) apareceu e foi aplaudida pelo público.
A trilha sonora do filme "Carruagens de Fogo", de 1981, de enredo olímpico, parecia direcionada a ser um momento emotivo. Não era. Do nada, surgiu Mr. Bean, o sujeito atrapalhado que o ator Rowan Atkinson tornou famoso mundo afora. Ele tocou piano, sempre na mesma nota, acompanhando a música, com cara de tédio. Pegou o celular para fazer fotos. E adormeceu. Acabou sonhando que estava em uma corrida. E que conseguia vencê-la - trapaceando, claro.
Uma forte sequência musical agitou o estádio. O pop e o rock britânicos foram lembrados com alguns de seus principais clássicos: "My Generation", do The Who, "Bohemian Rapsody", do Queen, e "Starman", de David Bowie, serviram como parte da trilha sonora. A mudança de ritmos ao longo dos anos foi mostrada na apresentação, que também lembrou a revolução tecnológica que acompanhou as transformações culturais, com a internet alavancando a era da conectividade.
A empolgação foi cortada para um momento de reflexão, de lembrança aos mortos. Emeli Sande cantou a música "Abide With Me", composta por Henry Fancis Lyte em 1847. Ele morreu três semanas depois de finalizá-la. A canção virou um hino para os britânicos. E foi a senha para, em seguida, começar o desfile das delegações.
Olhardireto

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